terça-feira, 26 de fevereiro de 2008
A foto que virou Grafite por Walter Firmo
Aí Jorge Diehl,
Esta matéria postei em sua homenagem, espero que goste.
Abraços,
Alessandro Souza
segunda-feira, 25 de fevereiro de 2008
Fotografia - Um tesouro de família
Luciano Ferrez/Acervo Família Ferrez

A foto de Luciano Ferrez mostra um panorama de São Conrado, em 1933: praia deserta e a favela da Rocinha nascendo ao fundo
Entre os pioneiros da fotografia no Brasil, o nome mais conhecido e a obra mais monumental são de Marc Ferrez (1843-1923). Seu acervo, conservado durante décadas por sua família, pertence hoje ao Instituto Moreira Salles. Agora, os Ferrez voltam à cena, com uma exposição de preciosidades garimpadas em outro acervo, que permanecia guardado em família e foi doado no ano passado ao Arquivo Nacional: as 8.000 imagens registradas pelos filhos do fotógrafo, Júlio e Luciano, e por um de seus netos, Gilberto. São fotografias inéditas, de alta qualidade técnica e excelente estado de conservação, que mostram paisagens urbanas e cenas do cotidiano do Brasil e do exterior entre 1910 e 1950. Um retrato precioso de uma época pouco estudada, na qual apenas um nome se destaca fora dos círculos especializados: o de Augusto Malta, fotógrafo da prefeitura do Rio de Janeiro entre 1903 e 1936.
A exposição, que reúne 396 imagens da lavra de Júlio, Luciano e Gilberto Ferrez, tem curadoria de Pedro Karp Vasquez, grande estudioso da fotografia brasileira. Será inaugurada nesta semana no Centro Cultural Banco do Brasil, no Rio de Janeiro, e em data ainda a ser definida segue para São Paulo. Ela revela talentos que tinham na fotografia uma atividade intensa, embora secundária. Júlio, que assim como Luciano trabalhava no ramo de distribuição de filmes, chegou a publicar um manual para fotógrafos não profissionais, O Amador Photographo, em 1905. Gilberto Ferrez, que se notabilizou como pesquisador de história da fotografia, desde os 18 anos não saía de casa sem uma câmera.
Gilberto Ferrez/Acervo Família Ferrez

O centro de São Paulo por Gilberto Ferrez, em 1931: o poderio econômico já se mostrava na publicidade
No período retratado, a linguagem fotográfica passava por grande transformação, provocada pelo avanço da tecnologia. Os pioneiros da fotografia trabalhavam com trambolhos de 5 quilos, que exigiam acessórios de peso três vezes maior. A partir da virada do século XX, esses equipamentos foram sendo gradualmente substituídos por máquinas mais leves e versáteis. Nos anos 20, já havia modelos de menos de 1 quilo, que permitiam fotos com a câmera na mão e maior mobilidade. Graças a isso, perdeu espaço o fotógrafo de câmera e tripé, especializado em imagens posadas. Essa mudança, associada aos filmes em rolo, que substituíram as pesadas chapas de vidro, favoreceu o desenvolvimento da fotografia amadora, que registrava o cotidiano sob um viés mais espontâneo. "Começam a surgir fotos feitas informalmente, no seio da família ou durante viagens. E os Ferrez vivenciaram essa transformação dentro de casa", diz Sérgio Burgi, coordenador de fotografia do Instituto Moreira Salles.
Outro aspecto importante do acervo é que ele registra as muitas transformações urbanas do Brasil da época. A cidade do Rio de Janeiro, então capital federal, passou por duas grandes reformas. A primeira, mais conhecida, foi a do prefeito Pereira Passos, em nome de uma modernização urbanística. A segunda começou nos anos 1930, pela mão do prefeito Henrique Dodsworth, responsável, entre outras grandes obras, pela abertura da Avenida Presidente Vargas. Além do Rio, há imagens preciosas de monumentos na Bahia, Pernambuco, São Paulo e Minas Gerais na primeira metade do século passado. O legado de Marc Ferrez para a fotografia brasileira é considerado, há muito tempo, um dos mais significativos da história. Vê-se agora que, direta ou indiretamente, sua contribuição foi ainda maior.
Júlio Ferrez/Acervo Família Ferrez

Marc Ferrez fotografado por seu filho Júlio, em 1915: acervo inédito por quase um século
outras fotos :


Fonte : Revista Veja edição 2049 - ano 41 - nº8
27 de fevereiro de 2008
quinta-feira, 21 de fevereiro de 2008
Foto do Dia NGEO 21 02 2008

Pontoon Rafting, Grand Canyon National Park, Arizona, 2006
Photograph by Michael Nichols
Rafters aboard a motorized pontoon boat get a thorough soaking on the rain-swollen Colorado River in Arizona's Grand Canyon National Park. Each year, some 22,000 visitors board rubber paddle rafts, oar-powered wooden dories, and luxury motorized rafts to ply this storied stretch of the Colorado's waters.
(Photo shot on assignment for, but not published in, "The Unexpected Canyon," January 2006, National Geographic magazine)
quarta-feira, 20 de fevereiro de 2008
Saiba Mais - Agência Magnum
COLABORAÇÃO PARA A FOLHA
Isso tudo, porém, só se tornou possível após uma das maiores revoluções ocorridas na história da fotografia, que foi a criação da câmera portátil de 35 milímetros, que permitia aos fotógrafos registrar cenas com baixa luminosidade sem o uso de tripé, o que também possibilitava que o fotógrafo se tornasse quase invisível na cena. Daí surgiram os flagrantes nos quais a expressão humana passou a ser captada em total naturalidade.
Henri Cartier-Bresson começou a fotografar em 1931, justamente no momento em que a câmera Leica passou a ser comercializada. Com a máquina portátil em punho, ele foi para a rua e, na busca de momentos decisivos, em que o mundo parecia entrar em total harmonia no visor de sua Leica, esboçou a síntese do fotojornalismo praticado até hoje.
Quando a fotografia contemporânea documental começou a se transformar, a partir dos anos 80, com maior uso da pose e da cor, por exemplo, Bresson votou contra a entrada na agência de fotógrafos dessa tendência, como o britânico Martin Parr. Foi derrotado e, aos poucos, deixou a fotografia e retornou ao desenho, que adotou como forma de expressão até sua morte, em 2004.
A Magnum funciona como uma cooperativa e representa 78 fotógrafos (entre mortos e vivos). Priorizam pautas próprias em detrimento de trabalhos por encomenda.
A nova geração de fotodocumentaristas incorporadas ao staff nos últimos anos injetou um novo fôlego à agência. Uma amostra disso foram os diversos prêmios ganhos pela equipe recentemente. (EC)
Fonte: Folha de São Paulo
Magnum reconta sua história em 50 imagens
Agência fundada em Paris em 1947 ganha exposição até 6 de abril na avenida Paulista; registros vão do cotidiano aos grandes fatos
| Henri Cartier-Bresson/Magnum Photos/ Divulgação |
EDER CHIODETTO
COLABORAÇÃO PARA A FOLHA
São Paulo recebe a partir de hoje, na Galeria Paulista da Caixa Cultural, uma versão diferenciada desta mostra, com curadoria assinada pelo pesquisador João Kulcsár. Fundada em Paris, em 1947, pelos fotógrafos Henri Cartier-Bresson, Robert Capa, David Seymour e George Rodger, a agência se notabilizou ao priorizar o flagrante, o momento decisivo idealizado por Bresson e a narrativa de forte acento autoral, tanto para retratar os grandes acontecimentos como o cotidiano mais banal observado nas ruas. Tal filosofia deu ao fotojornalismo uma dimensão humanística que ainda lhe faltava e ditou as regras da produção dos repórteres-fotográficos a partir de então.
As 50 fotografias que integram a mostra que chega agora a São Paulo são obviamente insuficientes para abarcar a diversidade do arquivo da agência, que conta com mais de 1 milhão de imagens.
Kulcsár optou por selecionar imagens clássicas, muitas das quais já fazem parte do nosso arquivo de imagens mentais da história, como a fotografia de Stuart Franklin em que um estudante chinês impede a passagem de tanques de guerra na praça Tiananmen, em Pequim, em 1989, ou a célebre imagem de Robert Capa que mostra o desembarque dos soldados americanos na Normandia, em 1944, conhecido como o Dia D, que culminaria com o fim da Segunda Guerra Mundial.
A magia inerente à fotografia, que a faz evocar tempos e espaços distintos do passado para reuni-los no exíguo espaço de uma galeria, permite ao visitante passar em revista, por exemplo, Fidel Castro no poder, o movimento estudantil em maio de 1968 na França, a Guerra do Vietnã, os conflitos em Gaza, o assassinato de John F. Kennedy, a guerra civil da Nicarágua e o ataque em Nova York em 11 de setembro de 2001.
Entre os módulos criados pelo curador, há flagrantes de pequenos gestos e imensa beleza, geralmente colhidos na rua, ao estilo dos "street photographers", sobretudo nos trabalhos de Bresson e Elliot Erwitt, além de retratos de personalidades como Che Guevara, Marilyn Monroe, James Dean e Salvador Dalí.
Para contrapor as imagens de autores e acontecimentos de décadas anteriores, há alguns poucos trabalhos da nova geração de fotógrafos da Magnum, com destaque para o premiado fotodocumentarista italiano Paolo Pellegrin, 44, especializado em zonas de conflito, e o francês Antoine D'Agata, 47, um dos mais vigorosos fotógrafos da atualidade, com obra dedicada aos personagens que trafegam, traficam, se vendem e se drogam nas noites das grandes metrópoles.
Quando: abertura hoje, às 19h30 (convidados); de ter. a sáb., das 9h às 21h; dom., das 10h às 21h; até 6/4
Onde: Caixa Cultural - Galeria Paulista (av. Paulista, 2.083, tel. 0/xx/11/3321-4400)
Quanto: entrada franca
terça-feira, 19 de fevereiro de 2008
Foto do Dia NGEO 19 02 2008

Cabbage Coral, Kadavu Island, Fiji, 2004
Photograph by Tim Laman
Cabbage coral provides refuge to a bigeye fish in Great Astrolabe Reef off Fiji's Kadavu Island. More than 330 islands speckle Fijian waters, which hold nearly 4,000 square miles (10,350 square kilometers) of reef, a vital trove of marine biodiversity.
(Text adapted from and photo shot on assignment for, but not published in, "Fiji's Rainbow Reefs," November 2004, National Geographic magazine)
Fernando Lemos inaugura nova fase de galeria

São Paulo, terça-feira, 19 de fevereiro de 2008
Fernando Lemos inaugura nova fase de galeria
Olido, localizada no centro de SP, dará mais espaço para fotografia; Andujar e Benedicto vão ganhar exposições
Português radicado em SP desde 1954, Lemos terá exibidas imagens inéditas de sua família e do quarto centenário paulistano
| Fotografia de Fernando Lemos na Oca, no Ibirapuera, em 1954 |
MARIO GIOIA
DA REPORTAGEM LOCAL
"Fernando Lemos Preto e Branco" exibirá cerca de 150 obras do fotógrafo, artista plástico e poeta português radicado em São Paulo desde 1954, justamente o ano em que a cidade comemorava seus 400 anos.
O diretor do CCSP (Centro Cultural São Paulo), Martin Grossmann, assina a curadoria da exposição, junto de dois curadores-assistentes, Henrique Siqueira e Monica Caldiron.
"A mostra marca essa nova etapa da galeria, e o nome do Fernando Lemos é importante por representar um artista com variada produção e com forte participação como gestor, à frente do próprio Centro Cultural", diz Siqueira. Lemos foi o segundo diretor do CCSP.
Entre as fotografias expostas, destaca-se um conjunto inédito de sete imagens feitas em 1954, nos preparativos de São Paulo para seu quarto centenário. São alguns dos primeiros registros de Lemos na cidade, onde se radicou ao fugir do regime salazarista em Portugal.
Há um outro conjunto de imagens inéditas, a série "Manhã de Domingo", feita nos anos 70, na qual Lemos faz instantâneos de seus três filhos ainda crianças em uma São Paulo pouco reconhecível hoje.
No entanto, a produção surrealista de Lemos, feita entre o final dos anos 40 e o início da década seguinte, continua a ser um dos pontos altos da fotografia de Lemos. Reconhecida recentemente em âmbito internacional, há 14 imagens dessa fase presentes na Olido.
Outros segmentos menos conhecidos da produção de Lemos são apresentados, como os livros da editora infanto-juvenil Giroflé, fundada por ele nos anos 60, logotipos, padronagens de cerâmica, desenhos e poemas, entre outros itens. "Acabei de voltar de Lisboa e ainda estou me preparando para a mostra", diz o fotógrafo.
Outras exposições
De acordo com Siqueira, o espaço terá mostras de Claudia Andujar e Nair Benedicto, ainda neste ano. E, dentro de sua política de resgatar produções do acervo municipal, a exemplo da mostra de B. J. Duarte (1910-1995), exibida no ano passado, será montada uma exposição com fotografias de Fredi Kleemann (1927-1974). Também foram abertas inscrições para o edital do programa anual de fotografia. Mais informações no site www.centrocultural.sp.gov.br.
FERNANDO LEMOS PRETO E BRANCO
Quando: abertura hoje, às 19h30; de ter. a sex., das 9h às 21h30, sáb. e dom., das 12h30 às 20h; até 13/4
Onde: Galeria Olido (av. São João, 473, sobreloja, tel. 3331-8399)
Quanto: entrada franca
CCBB TRAZ "ECOTURISMO" DOS FERREZ
Segundo o curador Pedro Karp Vasquez, a exposição mostra uma faceta pouco conhecida da família Ferrez: a de pioneiros do "ecoturismo" brasileiro. São registros fora das rotas turísticas de então, como a fortaleza do Buraco, em Recife, o forte do Príncipe da Beira, em Mato Grosso, e as fotos na serra dos Órgãos (RJ), onde Gilberto fazia escaladas. Ou ainda passeios à ilha de Paquetá e outras áreas da baía da Guanabara, ainda impolutas.
A descoberta do passado - com quase 400 imagens inéditas feitas por filhos e neto do pioneiro da fotografia Marc Ferrez.


São Paulo, terça-feira, 19 de fevereiro de 2008
Mostra revela cenas raras da história
Segundo curador, filhos e neto de Ferrez eram amadores, mas fotografavam como profissionais devido a entusiasmo
Registros incluem desmonte do morro do Castelo e abertura do largo da Carioca, no Rio, e vale do Anhangabaú, em São Paulo
| Divulgação |
EDUARDO SIMÕES
DA REPORTAGEM LOCAL
As quase 400 imagens de "Família Ferrez: Novas Revelações" vêm de um universo de 4.000 negativos, descobertos no fim de 2005, quando uma equipe de pesquisadores estava começando um projeto de organização do acervo documental da família Ferrez. Segundo a curadora Julia Peregrino, o material estava acondicionado em sacos ou álbuns, sem identificação, e era apenas para "consumo doméstico".
"Propusemos higienizá-los, digitalizá-los e catalogá-los, terminando o processo com a exposição e a edição de um catálogo. Tudo será incorporado ao acervo da família, que foi doado em 2006 ao Arquivo Nacional", diz Peregrino, que vem tocando a seleção e identificação do material desde meados do ano passado.
Blocos
Cento e setenta imagens estarão expostas nas paredes do CCBB. As demais, em álbuns para o público folhear.
Feitas entre 1912 e 1958, as fotos foram divididas e exibidas em blocos temáticos. O "Nossa Terra" traz imagens feitas pelos Ferrez em viagens pelo Brasil. Em "Outras Terras", aparecem as viagens para o exterior. No bloco "Comentário Social", os curadores apresentam personagens da própria família Ferrez ou pessoas que trabalhavam para eles, uma seção particularmente interessante pelo registro do vestuário de época, da pele de raposa à camisa esfarrapada de um operário.
"Nesse período em que eles atuam ainda não se tem muita gente circulando pelo Brasil, fotografando. Nem mesmo a imprensa. A revista "O Cruzeiro" começou apenas em meados dos anos 40", afirma Pedro Karp Vasquez, também curador da exposição. "Muitas delas foram feitas em 1922, no centenário da Independência do Brasil, que ainda era um país jovem. Os Ferrez eram amadores, mas fotografavam como profissionais, por conta de seu entusiasmo pessoal pelo país."
Rio
Dentro do bloco dedicado ao Brasil estão cenas raras da história do Rio de Janeiro, onde vivia a família, como o desmonte do Morro do Castelo (entre 1921 e 1922), uma ressaca no mar no bairro da Glória (1921), antes de o parque do Flamengo existir, e a abertura do largo da Carioca (também feita entre 1921 e 1922). Já São Paulo aparece em uma fotografia de 1931, do hotel Esplanada, no vale do Anhangabaú.
A mostra terá ainda uma sala com diários de viagens da família, correspondência e álbuns originais. Para Vasquez, a exposição faz um resumo do aperfeiçoamento das técnicas de fotografia em parte do século 20. Os Ferrez começaram com máquinas que exigiam a troca de chassi a cada registro, passaram para os negativos de seis por nove centímetros, até chegarem ao formato de 35 mm.
O curador também destaca as fotos tiradas nas viagens ao exterior. "Quando eles fazem registros em Londres, Paris ou Florença, são imagens raras também porque havia poucos brasileiros fotografando lá. Se viajar era reservado aos poucos, fotografar era aos pouquíssimos", diz Vasquez.
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Ei Pessoal,
Para quem gosta de boas exposições, tá aí uma dica, fotografias dos descendentes de Marc Ferrez.
Abraço à todos,
Alessandro Souza
segunda-feira, 18 de fevereiro de 2008
Foto do Dia NGEO 18 02 2008

Pines and Palm Trees, Big Cypress National Preserve, Florida, 1996
Photograph by Raymond Gehman
Sunset bathes Florida's Big Cypress National Preserve in an orange glow. The preserve, 720,000 acres (291,375 hectares) of primordial swamp on Florida's southwest coast, is home to the elusive Florida panther and an impressive diversity of birds, among other unique fauna and flora. But human development in and around the area threatens to send this fragile ecosystem into a tailspin.
(Text adapted from and photo shot on assignment for, but not published in, "In Big Cypress Country," March/April 1997, National Geographic Traveler magazine)
domingo, 17 de fevereiro de 2008
Entrevista - Sebastão Salgado para Revista da Livraria Cultura nº6 2008

O fotógrafo Sebastião Salgado está sempre em trânsito pela vida. Em sua base, a cidade de Paris, reside por não mais do que três meses do ano. No tempo restante, está metido em algum recôndito canto do planeta, fotografando o humano, as paisagens ou os animais. Ao longo dos anos, a África se tornou um destino privilegiado de suas numerosas expedições. Imagens registradas em 40 reportagens feitas durante 30 anos foram reunidas agora em um livro, lançado pela editora alemã Taschen. A obra mostra a força, a intensidade, a poesia e a singularidade da arte do fotógrafo no revelar as várias faces do continente africano. Entre um desembarque da Colômbia e um embarque para o Japão, Sebastião Salgado conversou na capital francesa com a Revista da Cultura sobre a África, mas também sobre os destinos do planeta, o Brasil, a política e seu trabalho como fotógrafo.
Por Fernando Eichenberg, de Paris
O escritor moçambicano Mia Couto escreveu que você visitou a África em tempos de cristal e em tempos de lágrima, testemunhou a consumação do trágico, mas também o eclodir da esperança. Você vê saída para a África? Há saída, sim. Moçambique é um exemplo. Foi o único caso de uma negociação de paz levada a cabo pela ONU que funcionou. O fluxo de investimento é forte, a modificação estrutural do país... Botsuana e Namíbia também estão indo bem. Mesmo a África do Sul. A violência de lá é a nossa e a da Colômbia. É a violência de países que se urbanizaram, que adquiriram em três ou quatro décadas uma estrutura parecida com as que consideramos modernas nos países da Europa. O Brasil passou de 80% de população rural há 40 anos para 85% de população urbana, o que a Europa levou 600 ou 800 anos para fazer. É claro que não podemos deixar o continente africano abandonado. Nos últimos séculos, o melhor da África foi para o Brasil e para a América do Norte. Pegamos os escravos, quem era mais forte, quem tinha capacidade de trabalho. Quem vem para a Europa hoje? São os que têm maior capacidade de iniciativa, que não conseguem fazer nada em seu próprio país, pois não há fluxo de investimento, só matéria-prima. Isso vai ter de parar. Foi o caso do Brasil. Há 30 anos, éramos meros fornecedores de matéria-prima e hoje temos empresas como a Vale do Rio Doce, a 16ª maior do mundo. Eu não poderia imaginar isso nos anos 1950. Nos anos 1960, quando vivi no interior, todos os caminhões que destruíram nossa Mata Atlântica vinham dos Estados Unidos. Quando iríamos imaginar que seríamos esses grandes exportadores de hoje? Estamos vendo a desmoralização de uma referência do planeta em termos monetários, que é o dólar. Quem diria? Temos o direito de ser otimistas nesse caso. Não que a violência vá acabar do dia para a noite, mas acho que é o momento de as coisas começarem a mudar. Está-se indo na boa direção. Da África para o planeta. O seu projeto Gênesis é uma forma de repensar o “de onde viemos, para onde vamos”. Você acredita na supremacia do atual discurso ecológico sobre o mundo consumista, imediatista e individualista? O discurso no planeta mudou radicalmente nos últimos dez anos. A ponto de um ex-candidato a presidente dos EUA ter sido prêmio Nobel a partir de um discurso inteiramente ecológico. Atualmente, as pessoas com possibilidades de se tornar presidente do país são as que têm uma preocupação com esse grito de alarme do aquecimento global, que é real. Hoje, chega-se à conclusão de que todo o gelo do Ártico, que deveria terminar nos próximos 60, 70 anos, vai acabar no máximo em 10, 12 anos. É um momento muito interessante, porque o perigo está aí e as coisas vão ter de mudar. Não há uma empresa nesta parte do planeta que não tenha como referência o discurso ecológico. Nesse ponto, estamos muito atrasados no Brasil. O discurso da agricultura que tem hoje o governo, com o qual tenho certa proximidade, é um discurso velho. O discurso da megaempresa agrícola, de grande exportador de matéria-prima... Quando se calcula a porcentagem que essa matéria-prima exportada tem na composição do PIB brasileiro, é algo muito pequeno. O discurso moderno da agricultura é o do desenvolvimento sustentável, da recuperação ambiental. Podemos reduzir a aceleração do efeito do aquecimento plantando árvores. E temos um espaço incrível para fazer isso no Brasil, para reequilibrar o fornecimento de água. Mas, ao lado desse discurso velho do governo brasileiro, existe uma preocupação nova. Há ONGs muito sérias e fortes, há um grupo de intelectuais, uma grande parte da população que está preocupada com isso, sim.
Você sempre denunciou a “ditadura financeira” como um dos piores males de nosso tempo. Ainda é? Vejo mais do que nunca o perigo disso. Mas muitas coisas trazem nelas mesmas a solução. A denúncia dessa grande ditadura financeira, a transparência de uma série de setores da economia, que antes não existia, começa a aparecer. Essas coisas terão de ser resolvidas, apesar de continuarmos acumulando de uma maneira incrível. Veja a quantidade de dinheiro desses fundos de pensão, a concentração dos bancos. Mas eles também têm certa vulnerabilidade. O fato de os americanos não terem hoje condições de pagar as prestações de suas casas, por causa dos juros altíssimos que os bancos impuseram, provocou uma crise forte no sistema financeiro. Tenho a impressão de que haverá um sistema de autocorreção na distribuição de renda no mundo, e relativamente rápido. Há pouquíssimos anos, toda a renda do planeta era concentrada na América do Norte, em algumas praças financeiras da Ásia, como Japão e Hong Kong, e na Europa. Hoje, está começando a haver uma redistribuição rápida disso, apesar de a renda ainda ficar muito concentrada na parte alta de todas as sociedades. Mas há uma reorganização desse fluxo financeiro, com a participação de outras praças, como São Paulo, Xangai, Nova Délhi, Bombaim, Moscou. Nenhuma era importante há dez anos. Veja a história do Mercosul. O Brasil tem cerca de 185 milhões de habitantes. Somados à população da Argentina, da Venezuela e, se entrar também, da Colômbia, você cria um bloco de consumidores tão forte quanto o bloco europeu. Com uma vantagem: o bloco europeu já chegou a um nível de saturação de consumo, e no Mercosul ainda há tudo por fazer. Politicamente, você sempre se posicionou à esquerda. Como anda a esquerda face ao desafio de apresentar alternativas nesses tempos de neoliberalismo e globalização? A esquerda tem de se desfazer e se fazer outra vez. Não há outro jeito. Pensar de uma maneira considerada de esquerda era o quê? Distribuição de renda, uma forma social mais justa, politicamente correta. Hoje as coisas mudaram. Muitas variáveis que não eram importantes passaram a ser, como a ecologia. Para se ter um pensamento de esquerda, tem de entrar a variável ecológica, bem como o desenvolvimento sustentável, a redistribuição de renda, a pesquisa. Mas quem tem um comportamento de esquerda? O Al Gore tem. O presidente Sarkozy, um homem da direita francesa, foi quem criou o Ministério do Meio Ambiente como um dos grandes ministérios do estado, o que até então não era. O Partido Socialista francês morreu por não entender o que estava acontecendo. A esquerda no Brasil, por exemplo, tem propostas antigas, que já amadureceram, secaram, morreram, mas ainda são utilizadas como instrumento de governo, e acho que isso tem de mudar. Contudo, o pensamento de esquerda nunca foi tão forte e tão vital como agora.
Que propostas antigas ainda são utilizadas como instrumento de governo? São tantas. A idéia de que o importante é o proletariado, é criar emprego no setor industrial, no setor de exportação agrícola. A forma de criar energia no Brasil... Essas coisas já passaram. O Brasil necessita de energia demais, mas essas formas já não são mais as boas, há outras maneiras de fazer. Também as estruturas pesadas dos partidos não podem mais funcionar assim. Como vê os governos de Evo Morales, na Bolívia, e de Hugo Chávez, na Venezuela? São coisas do passado no presente. Em 2006, passei dois meses na Venezuela e vi a forma como a coisa está sendo feita e imposta. Vai ser muito duro para o país. Mas a Venezuela vem de um passado terrível, com uma classe no poder que dominou e roubou tudo. Se tivesse sido de outra forma, poderia ser um dos grandes países do planeta. Mas roubaram tudo. Então, existe uma amargura muito forte na classe que foi roubada durante todo esse tempo e que levou ao poder alguém que se transformou em um ditador, se armando até os dentes. Para quê? Os Estados Unidos vão atacar a Venezuela? Jamais. Para tomar um caminho interessante, a Venezuela terá de passar por um processo de auto-regeneração e de sofrimento também. Historicamente, você não tem medo, pois sabe que as coisas vão passar. Mas quando você vai lá e vê do jeito que está... Vai ser duro! E o governo Lula? Confio no Lula, acho uma pessoa interessante, o conheço, acho que tem um carisma e que pode fazer as coisas. Não se pode comparar o Lula ao Chávez, pois o Brasil é um sistema democrático. Está em um processo de ajuste e de correção fabuloso do aparelho de estado. O Brasil tem instituições fortes. No seu posicionamento internacional, conta com uma chave que poucos países têm, que é um Ministério das Relações Exteriores, baseado no Itamaraty, de ótima qualidade e com técnicos fantásticos. O Brasil tem um exército que se modernizou e se profissionalizou. Conheci vários oficiais e unidades do exército brasileiro representados fora do país, e a maneira como se comportam não tem mais a ver com aquele exército velho, de que tínhamos medo. Isso mudou. O Brasil tem um sistema federal de coleta de impostos justo. Há um sistema de pesquisa em determinados setores muito interessante. Na agricultura, há um sistema que deveria ser mais apoiado, que é a Embrapa. A Petrobrás desenvolveu tecnologia de offshore única no planeta. Gosto muito da idéia do governo Lula de redistribuição de renda. Não sei se o Bolsa Família é o melhor, mas houve uma revolução nesse sentido e tem de ser reconhecida. Você se sente brasileiro, um pouco francês, cidadão do mundo? Meu passaporte brasileiro foi retido, por volta de 1975, e depois entrei com um processo, junto com o Augusto Boal, para recuperá-lo. Tenho documentos franceses, mas me sinto brasileiro. Estou adaptado aqui e tenho filhos nascidos na França, mas sou brasileiro, o que para mim é um prazer e uma honra. Nessas viagens pelo mundo me coloco a partir de uma ótica muito mais brasileira do que francesa. Com o privilégio de ter viajado por mais de 120 países, de ter visto esse planeta de dentro, com tempo. Sou brasileiro com formação internacional. Como fotógrafo, sua maneira de enxergar, sua relação com a luz, é brasileira e sua formação é francesa? É interessante, porque, pelo lado técnico da fotografia, sou formado na França, mas, para os fotógrafos franceses, sou considerado um fotógrafo brasileiro, porque minha maneira de ver não é a daqui. É meio especial. Tudo o que aprendi em fotografia foi aqui, mas isso é uma variável até o momento em que passa a ser uma constante, pois o que você aprendeu está aprendido, e o importante na fotografia é o que você tem e traz dentro de você. É a sua visão de mundo, que no meu caso é muito brasileira.
Você começou a fotografar paisagens recentemente e diz que evoluiu muito em relação à natureza. Como foi isso? Essa reaproximação com a natureza foi no Vale do Rio Doce, onde nasci. É tão importante você não romper com sua raiz. Eu rodei, fiquei anos fora do Brasil e, no dia em que fui fixar uma âncora, foi lá. E voltei para aquela luz, para aquele lugar. Isso levou a uma transformação da minha fotografia. Foi a experiência com aquela terra. Claro que tudo é explicável, mas há coisas que você não compreende e nem sabe por que é levado de volta. Uma vez, estava com uma equipe de televisão lá em Aimorés e fui levá-los para pegarem um ônibus direto para Vitória. Fui passando por uma estradinha adentro e um deles me disse: “Salgado, você morou tanto tempo na França, mas na realidade nunca saiu daqui” (risos). Quando subo no avião para ir ao Brasil, já entro rindo, me transformo e chego como se nunca tivesse saído de lá. O projeto Gênesis busca regiões virgens nos 46% do planeta que você diz que ainda estão intactos. Como são essas viagens? Quando você está em uma tribo lá no interior do Brasil, no fundo do Amazonas, vê que ela não tem nada para aprender aqui com essa sociedade. O que é essencial, já sabíamos há 5 mil anos. Já tínhamos antibióticos. Nós apenas sistematizamos e transformamos em outros componentes químicos para aumentar a quantidade, mas a base já havia. Antiinflamatório já havia. Os ianomâmis lá do interior de Roraima têm uma noção de geologia perfeita. Eles são seminômades, só vão voltar para um local em que haviam se fixado 100 anos depois, quando a floresta estiver refeita. Os problemas que temos de amar, de sofrer, de ciúme, são os mesmos. O que é interessante na preservação dessas partes do mundo é a preservação da nossa referência. Isso é muito importante. É quase impossível fazer uma projeção futura sem olhar para trás. É importante preservar a natureza, os grandes sistemas de água. O planeta não está em perigo, ele é um velho de 6 bilhões de anos, e daqui a 6 bilhões de anos ainda vai estar aqui. Quem está em perigo somos nós, nossa espécie. A questão é que devemos ser sábios o suficiente e refazer o que desfizemos. Só isso. A idéia desse projeto Gênesis é buscar essas áreas, ajudar a fazer uma nova apresentação do planeta. Minhas fotografias não têm importância. Mas as minhas fotografias somadas a este artigo, mais as informações da televisão, as organizações que estão militando, as instituições de boa vontade, passam a ser um elemento dentro disso tudo. Nos distanciamos demais do planeta. Há o fato de termos urbanizado, de nos considerarmos o único animal racional – o que é uma mentira, cada espécie tem seu racionalismo. Hoje, se discute a distribuição de renda, a destruição da floresta tropical, a poluição do oceano, a aids, tudo o que se quiser, e não encontramos soluções. Estamos meio perdidos. Nossa espécie está desencontrada. Para mim, o fator principal é que perdemos o contato com o planeta e a idéia de que somos natureza. Acreditamos que somos seres diferentes, privilegiados, com direito a consumir, destruir. Não temos esse direito. Tudo o que é destruído é um déficit. E esse déficit, outro vai pagar por você. 
Como você se imagina daqui a dez anos? Fotógrafos vão longe. É uma profissão em que você vive pra fora, tem válvula de escape o tempo todo. Estive no México há poucos anos, foi o aniversário de 100 anos do Álvarez Bravo. O Henri Cartier-Bresson morreu com 96 anos. Lembro que, quando trabalhava na agência Magnum, a Eve Arnold, que tinha mais de 85 anos na época, pegava a máquina, entrava no avião e ia para a Índia fotografar. Não vejo prazo para terminar a minha carreira. Fazer projetos de oito anos como o Gênesis já é mais complicado. Possivelmente este seja meu último longo projeto. A partir daí, vou viver como todo o mundo, o dia-a-dia. Você já se disse admirador de Guimarães Rosa e de Jorge Amado. O que está lendo agora? Acabei de ler A fazenda africanoa, da escritora dinamarquesa Karen Blixen. É fantástico ler um livro sobre a África escrito nos anos 1930. E reli agora O nome da rosa, do Umberto Eco. Estou sempre lendo. Meu grande companheiro de viagem é o livro, sempre consigo uma horinha para ler. Questionado se, até ali, a vida havia sido boa com ele, o filósofo Jean-Paul Sartre respondeu: “No todo, sim. Não tenho do que me queixar. Ela me deu o que eu queria e, ao mesmo tempo, me fez reconhecer que não era grande coisa. Mas o que se pode fazer?”. E encerrou com uma grande gargalhada. A vida foi boa com você? Não posso me queixar. A vida foi boa para mim. Sou uma das poucas pessoas que teve a oportunidade de ver o planeta a fundo, de conhecer diferentes culturas. E agora, com o projeto Gênesis, tenho a oportunidade de conhecer as coisas mais nobres, mais fantásticas e de mais difícil acesso – porque nas de fácil acesso todo o mundo já foi e destruiu. É uma surpresa a cada curva da vida. Não dá para você ser blasé, porque é um prazer grande cada nova descoberta. Como fotógrafo, assim, houve possivelmente uma profissão na Idade Média, que depois desapareceu, que foi a dos andarilhos, pessoas que iam de um lugar a outro, aprendiam, transmitiam, iam passando para a frente. Realmente, tenho uma profissão interessante. Fui um privilegiado na vida. ©
Esta Dica de entrevista foi do Luiz, ontem lá assembléia, onde ele nos levou um exemplar da Revista da Cultura.
Valeu Luiz,
Um Abraço,
Alessandro Souza
sexta-feira, 15 de fevereiro de 2008
Foto do Dia NGEO 15 02 2008

Ancient Sculpture, Angkor, Cambodia, 1968
Photograph by W. E. Garrett
Centuries of dormancy allowed the Cambodian jungle ample time to consume the work of Khmer artists in the sprawling Angkor temple complex. Built beginning in A.D. 800, Angkor was the capital of the Khmer kingdom until about A.D. 1430, when its leaders abandoned the site to establish a new capital at Phnom Penh.
(Photo shot on assignment for, but not published in, "Mekong: River of Terror and Hope," December 1968, National Geographic magazine)
Caros Coelgas,
Chamo a atenção de vocês para o ano que foi produzida esta imagem o ano de 1968.
Abraço à todos,
Alessandro Souza
quinta-feira, 14 de fevereiro de 2008
Foto do Dia NGEO 14 02 2008

Common Loons, Moose Lake, Wyoming, 1988
Photograph by Michael Quinton
Two common loons in checkered breeding plumage engage in a courtship ritual in Wyoming's Moose Lake. Loon pairs are generally monogamous and highly territorial, emitting their haunting yodels during the breeding season to ward off intruders and violently attacking any that come too close.
(Photo shot on assignment for, but not published in, "The Common Loon Cries for Help," April 1989, National Geographic magazine)
quarta-feira, 13 de fevereiro de 2008
Barraca do Motha por Luiz Alves


Luiz Alves
Colaborador
Escreveu,
Valeu Luiz Alves,
Abraço à todos,
Alessandro Souza
























